Amamentar quando está doente

O leite materno é constituído por vitaminas, enzimas, minerais e imunoglobulinas, tendo como função não só alimentar, mas também proteger o bebê. Por este motivo, a Organização Mundial de saúde aconselha o aleitamento exclusivo até aos 6 meses e prolongá-lo até aos 2 anos complementado com outros alimentos, como já foi sendo esclarecido na Rede Mãe.

No entanto, uma das questões que costuma causar confusão é se a mãe pode continuar a amamentar se adoecer durante este período.

Salvo raras exceções, a amamentação está indicada mesmo que a mãe adoeça. São poucas as doenças maternas em que se aconselha a interrupção do aleitamento materno, permanente ou temporária.

No caso das doenças de carácter infeccioso o momento da apresentação dos sintomas nem sempre é o momento do aparecimento da doença o que pode significar que a mãe já terá passado a doença para o seu bebê. Mas, se estiver a ser amamentado, mesmo que o bebê fique doente, parece que quando a mãe mantém o aleitamento, a sintomatologia fica atenuada, aumentando ao mesmo tempo a proteção do bebê.

Falemos de alguns exemplos mais comuns:

Mastite

© Gekaskr | Dreamstime.com

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Trata-se de um processo inflamatório da mama que pode ou não ser de natureza infecciosa que pode provocar febre, dor e seio quente.

Neste caso, o leite deve ser retirado por meio da amamentação e se houver excesso de leite após as mamadas deve promover-se o esvaziamento manual. Se não se resolver a sintomatologia com  analgésicos adequados deve procurar-se o  médico porque pode ser necessária a utilização de antibióticos.

 

Herpes Simples

Não deve haver interrupção da amamentação. Exceto quando o seio tiver algumas lesões à superfície da pele; nesse caso deve evitar oferecer esse lado do seio.

O cuidado essencial tem a ver com o contacto das vesículas. Devem tapar-se as vesículas, lavar bem as mãos e evitar o contato próximo com o bebê.

 

Tuberculose

A transmissão da doença acontece através das vias respiratórias. O Bacilo de Koch (bacilo da Tuberculose) é excretado pelo leite materno, muito excepcionalmente.

Assim, o contato próximo deve ser reduzido, sendo necessário o uso de máscara (cobrindo o nariz e a boca) e lavar muito bem as mãos.

Nas formas de Tuberculose não pulmonar não está conta-indicado o aleitamento materno, nem quando a mãe está a fazer medicação; uma vez que a farmacologia mais comum, nos dias de hoje, parece não afetar a qualidade do leite. No entanto, está indicado o acompanhamento próximo do bebê, de forma a detetar-se precocemente qualquer efeito adverso da medicação.

 

Varicela

Esta doença transmite-se, sobretudo, pela via respiratória e pelo contacto direto com as vesículas na pele. No entanto, também pode transmitir-se pelo leite materno e através da placenta.

Assim, quando a grávida apresenta varicela até cinco dias antes ou dois dias após o parto pode contagiar o bebê na sua forma grave. Por isso, a amamentação, se for este o caso, deve ser interrompida temporariamente até que as lesões evoluam para a fase de “crosta”.

A mãe deve ser isolada até atingir essa fase, deve ser administrada, o mais precocemente possível, imunoglobulina específica contra a varicela ao bebê e deve ficar em observação durante 21 dias.

O leite pode ser extraído mecanicamente para alimentar o bebê.

Se ocorrer há mais de 5 dias antes do parto ou 3 dias após o parto, a mãe pode transferir anticorpos para o bebê e pode amamentá-lo normalmente, tomando os devidos cuidados na lavagem das mãos, usando máscara e tapar as lesões.

 

Sarampo

É uma doença muito contagiosa através de secreções respiratórias, alguns dias antes e durante o período da doença.

Quando diagnosticada a doença na mãe está indicado o uso de imunoglobulina no bebê e o isolamento da mãe até 72 horas após o início de erupção cutânea.

Porque o aleitamento materno não está contraindicado, o bebê pode ser alimentado com o leite que é retirado mecanicamente da mãe.

 

Hepatite

Os vírus da hepatita A, B e C podem ser transmitidos para o bebê durante a gravidez, parto ou pós-parto.

O vírus da hepatite A pode ser excretado no leite humano na fase aguda da doença. Assim, a todos os bebês deve ser administrada a imunoglobulina anti-A.

O vírus da hepatite B transmite-se pelo contacto com sangue e secreções genitais. A maior probabilidade de contágio da doença acontece durante o trabalho de parto e parto. O bebê deve ser imediatamente limpo de qualquer vestígio de sangue ou secreções. É administrada, nas primeiras 12 horas, uma dose de imunoglobulina específica contra a hepatite B e até ao 7º dia de vida, a primeira dose de vacina da hepatite B. Após um mês administrar a segunda e a terceira dose no sexto mês de vida.

Se a hepatite for diagnosticada durante a lactação, o bebê deve continuar a ser amamentado e devem ser feitos testes laboratoriais, embora o bebê já tenha sido vacinado à nascença. Se o resultado for positivo deve ser revacinado.

A amamentação também está recomendada nas mães portadoras de hepatite C e preconiza-se a prevenção de fissuras mamilares porque ainda não está determinado se o contato do bebê com o sangue e com o leite pode favorecer a transmissão.

 

HIV / Sida

Esta sim é uma situação que impede a amamentação. Há estudos que indicam que 65% dos casos de transmissão do HIV ocorrem durante o trabalho de parto e no parto. Os restantes 35 ocorrerão dentro do útero, principalmente nas últimas semanas, e, depois, por aleitamento materno.

O recém-nascido é contaminado através da mucosa nasofaríngea e gastrointestinal. A transmissão do vírus ocorre em qualquer fase mas a carga viral é mais elevada no colostro e no leite inicial. Estão ainda a ser feitos estudos para conhecer com rigor o papel das células do leite materno na infecção pelo HIV.

 

Em resumo, a amamentação não só é possível como desejável na esmagadora maioria das doenças maternas de origem infecciosa. Nos casos em que a amamentação tenha que ser interrompida pode manter-se a alimentação do bebê com leite materno após extração manual.

Nos casos em que, de todo, não pode usar-se, temporariamente, o leite materno este deve ser desprezado. Deverá, em qualquer caso de dúvida, recorrer-se a um profissional de saúde para esclarecimento de condutas adequadas.

 

Publicado em 26 de maio de 2014

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