A controvérsia da chupeta

Nos primeiros meses de vida a maior sensibilidade do bebê se concentra na boca, sendo através dela que ele tem o único contacto com o mundo exterior. Portanto, para a criança a sucção funciona como uma das principais formas de exploração quer do seu corpo, através do ato de levar as mãos à boca, quer do ambiente, ao agarrar objetos e da mesma forma os conduzir à boca.

A sucção não-nutritiva assume um papel facilitador do ajustamento e interação da criança com o meio ambiente e pode manifestar-se através do uso da chupeta.

© Morguefile.com

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O termo anglo-saxônico pacifier, significa chupeta em inglês, parece sábio e acertado. Silva (2000) salienta esta ideia, afirmando no seu estudo que a sucção da chupeta apresenta uma função de auto controle, conforto e de sossego no bebê, possibilitando-lhe, desta forma, enfrentar as exigências do mundo externo com sucesso.

O uso da chupeta é um hábito instituído culturalmente. Contudo, este tema é controverso pois, se por um lado, não é recomendado o seu uso devido à possível influência na amamentação, na saúde oral da criança e no aumento de otites médias agudas, por outro a sua utilização voltou a despertar interesse devido ao efeito preventivo na Síndrome de Morte Súbita do Lactente (SMSL).

Tendo em vista o impacto negativo do uso da chupeta sobre a amamentação, vários autores procuraram evidência que comprovasse ou não, a influência da utilização da chupeta na manutenção da amamentação.

Jenik et al. (2009) no seu estudo concluiu que em bebês saudáveis, que foram amamentados com sucesso desde as 2 semanas de vida e cujas mães se encontravam motivadas para amamentar até aos 6 meses, a recomendação da utilização da chupeta não diminuiria a prevalência de aleitamento materno exclusivo aos três meses.

Outro estudo realizado em 2011 concluiu que a utilização da chupeta em crianças nascidas dentro do tempo, já com a amamentação estabelecida, não afetou significativamente a prevalência e/ou duração da amamentação exclusiva e parcial. Este estudo recomenda que até que surjam mais informações sobre os efeitos da chupeta em lactentes, as mães que estejam motivadas para amamentar devem  tomar a decisão sobre a utilização da chupeta por elas próprias.

Por outro lado, de entre todos os potenciais benefícios da utilização da chupeta, o que mais se destaca e que se encontra fortemente suportado pela evidência científica é a redução de SMSL (Nelson, 2012).  Hauck et al., (2005) realizaram um estudo que revelou a existência de uma forte relação entre o uso da chupeta e a redução do risco da SMSL, sendo o efeito mais forte quando a criança está dormindo. Afirmaram ainda que, incentivando o uso da chupeta, é provável que uma morte por SMSL pudesse ser evitada para cada 2733 crianças que usam chupeta quando colocada para dormir. Concluíram desta forma, que o uso da chupeta para a prevenção da SMSL é benéfico para crianças até um ano de idade.

Um estudo realizado por Araújo (2014) permitiu concluir que a utilização da chupeta parece prevenir a SMSL, não só pelo efeito protetor da chupeta na respiração durante o sono, como também através da posição que o lactente adota para dormir, evitando a posição de “barriga para baixo”, fator de risco para a SMSL.

A sucção não-nutritiva está associada ao prazer e satisfação do bebê assim, a sua utilização irá promover menos movimento durante o sono, reduzindo a probabilidade de a criança se voltar em decúbito ventral/lateral ou colocar roupa da cama/objetos sobre a sua cabeça prevenindo asfixia acidental.

No que diz respeito à incidência de Otites Médias Agudas (OMA), alguns autores afirmam a existência de uma correlação positiva desta patologia com o uso da chupeta. No entanto, sabe-se que a OMA tem um pico de incidência entre 12-24 meses de vida. Tendo em conta estes dados, pode-se recomendar a utilização da chupeta até aos 12 meses, já que até aqui a necessidade de sucção é relevante, a incidência de SMSL é alta e a incidência de OMA é baixa.

Relativamente à saúde oral da criança o uso da chupeta após os dois anos leva a alterações significativas na maxila. No que respeita à incidência de cáries, num acompanhamento efetuado a crianças não se observaram diferenças estatísticas significativas relativamente à prevalência de cáries em crianças com hábito de sucção não-nutritiva até aos 18 meses de idade (Yonezu e Yakushiji, 2008).

Dentro da maioria dos estudos realizados no sentido de conhecer a influência do uso da chupeta no desenvolvimento dentário, é consensual que as alterações sobre a arcada dentária dependem sobretudo de fatores como: frequência, intensidade e duração do hábito de uso da chupeta.

Em suma, a chupeta pode ser fornecida para prevenir a SMSL, desde que seja usada com moderação. O uso da chupeta não deverá ser desencorajado, podendo até ser especialmente benéfico nos primeiros 12 meses de vida.

Os riscos começam a igualar os benefícios em torno dos 12 meses de idade e parecem aumentar após os dois anos de idade, sendo após os 12 meses a idade ideal para o início da cessação do uso da chupeta.

Relembro que se a criança recusar a chupeta, não deve ser forçada a mantê-la. A chupeta não deve ser revestida com qualquer solução doce e deve ser limpa com frequência, bem como, substituída regularmente.

Contudo, é preciso ressalvar que a decisão de dar (ou não) a chupeta é uma decisão dos cuidadores. Trata-se de uma escolha pessoal. O mais importante é que os pais tenham conhecimento sobre este tema e que se sintam bem com a sua opção.

Publicado em 22 de julho de 2014 / Atualizado em 28 de julho de 2014

Araújo, Denise - O efeito da utilização da chupeta na Síndrome de Morte Súbita: Uma revisão sistemática da literatura com meta-analise. 2014 Dissertação de Mestrado.

HAUCK, Fern R.; OMOJOKUN, Olanrewaju O.; SIADATY, Mir S. - Do pacifiers reduce the risk of sudden infant death syndrome? A meta-analysis. Pediatrics. Vol. 116. n. º 5 (2005) p. e716-e723.

JENIK, A. G.; VAIN, N. - The pacifier debate. Early Hum Dev. Vol. 85. n. º 10 Suppl (2009). p. 89-91.

NELSON, A. M. - A comprehensive review of evidence and current recommendations related to pacifier usage. J Pediatr Nurs. Vol. 27. N.º 6 (2012). SILVA, J. - O Uso da Chupeta e a Síndrome da Morte Súbita do Lactente. Saúde Infantil. Vol. 22. (2000) p. 39-42.

YONEZU, T.; YAKUSHIJI, M. - Longitudinal study on influence of prolonged non-nutritive sucking habits on dental caries in Japanese children from 1.5 to 3 years of age. Bull Tokyo Dent Coll. Vol. 2. n. º 49 (2008) p. 59-63.

Veja o que a nossa comunidade está dizendo sobre este tema e comente! Comentar

A controvérsia da chupeta

Nos primeiros meses de vida a maior sensibilidade do bebê se concentra na boca, sendo através dela que ele tem o único contacto com o mundo exterior. Portanto, para a criança a sucção funciona como uma das principais formas de exploração quer do seu corpo, através do ato de levar as mãos à boca, quer do ambiente, ao agarrar objetos e da mesma forma os conduzir à boca.

A sucção não-nutritiva assume um papel facilitador do ajustamento e interação da criança com o meio ambiente e pode manifestar-se através do uso da chupeta.

© Morguefile.com

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O termo anglo-saxônico pacifier, significa chupeta em inglês, parece sábio e acertado. Silva (2000) salienta esta ideia, afirmando no seu estudo que a sucção da chupeta apresenta uma função de auto controle, conforto e de sossego no bebê, possibilitando-lhe, desta forma, enfrentar as exigências do mundo externo com sucesso.

O uso da chupeta é um hábito instituído culturalmente. Contudo, este tema é controverso pois, se por um lado, não é recomendado o seu uso devido à possível influência na amamentação, na saúde oral da criança e no aumento de otites médias agudas, por outro a sua utilização voltou a despertar interesse devido ao efeito preventivo na Síndrome de Morte Súbita do Lactente (SMSL).

Tendo em vista o impacto negativo do uso da chupeta sobre a amamentação, vários autores procuraram evidência que comprovasse ou não, a influência da utilização da chupeta na manutenção da amamentação.

Jenik et al. (2009) no seu estudo concluiu que em bebês saudáveis, que foram amamentados com sucesso desde as 2 semanas de vida e cujas mães se encontravam motivadas para amamentar até aos 6 meses, a recomendação da utilização da chupeta não diminuiria a prevalência de aleitamento materno exclusivo aos três meses.

Outro estudo realizado em 2011 concluiu que a utilização da chupeta em crianças nascidas dentro do tempo, já com a amamentação estabelecida, não afetou significativamente a prevalência e/ou duração da amamentação exclusiva e parcial. Este estudo recomenda que até que surjam mais informações sobre os efeitos da chupeta em lactentes, as mães que estejam motivadas para amamentar devem  tomar a decisão sobre a utilização da chupeta por elas próprias.

Por outro lado, de entre todos os potenciais benefícios da utilização da chupeta, o que mais se destaca e que se encontra fortemente suportado pela evidência científica é a redução de SMSL (Nelson, 2012).  Hauck et al., (2005) realizaram um estudo que revelou a existência de uma forte relação entre o uso da chupeta e a redução do risco da SMSL, sendo o efeito mais forte quando a criança está dormindo. Afirmaram ainda que, incentivando o uso da chupeta, é provável que uma morte por SMSL pudesse ser evitada para cada 2733 crianças que usam chupeta quando colocada para dormir. Concluíram desta forma, que o uso da chupeta para a prevenção da SMSL é benéfico para crianças até um ano de idade.

Um estudo realizado por Araújo (2014) permitiu concluir que a utilização da chupeta parece prevenir a SMSL, não só pelo efeito protetor da chupeta na respiração durante o sono, como também através da posição que o lactente adota para dormir, evitando a posição de “barriga para baixo”, fator de risco para a SMSL.

A sucção não-nutritiva está associada ao prazer e satisfação do bebê assim, a sua utilização irá promover menos movimento durante o sono, reduzindo a probabilidade de a criança se voltar em decúbito ventral/lateral ou colocar roupa da cama/objetos sobre a sua cabeça prevenindo asfixia acidental.

No que diz respeito à incidência de Otites Médias Agudas (OMA), alguns autores afirmam a existência de uma correlação positiva desta patologia com o uso da chupeta. No entanto, sabe-se que a OMA tem um pico de incidência entre 12-24 meses de vida. Tendo em conta estes dados, pode-se recomendar a utilização da chupeta até aos 12 meses, já que até aqui a necessidade de sucção é relevante, a incidência de SMSL é alta e a incidência de OMA é baixa.

Relativamente à saúde oral da criança o uso da chupeta após os dois anos leva a alterações significativas na maxila. No que respeita à incidência de cáries, num acompanhamento efetuado a crianças não se observaram diferenças estatísticas significativas relativamente à prevalência de cáries em crianças com hábito de sucção não-nutritiva até aos 18 meses de idade (Yonezu e Yakushiji, 2008).

Dentro da maioria dos estudos realizados no sentido de conhecer a influência do uso da chupeta no desenvolvimento dentário, é consensual que as alterações sobre a arcada dentária dependem sobretudo de fatores como: frequência, intensidade e duração do hábito de uso da chupeta.

Em suma, a chupeta pode ser fornecida para prevenir a SMSL, desde que seja usada com moderação. O uso da chupeta não deverá ser desencorajado, podendo até ser especialmente benéfico nos primeiros 12 meses de vida.

Os riscos começam a igualar os benefícios em torno dos 12 meses de idade e parecem aumentar após os dois anos de idade, sendo após os 12 meses a idade ideal para o início da cessação do uso da chupeta.

Relembro que se a criança recusar a chupeta, não deve ser forçada a mantê-la. A chupeta não deve ser revestida com qualquer solução doce e deve ser limpa com frequência, bem como, substituída regularmente.

Contudo, é preciso ressalvar que a decisão de dar (ou não) a chupeta é uma decisão dos cuidadores. Trata-se de uma escolha pessoal. O mais importante é que os pais tenham conhecimento sobre este tema e que se sintam bem com a sua opção.

Publicado em 22 de julho de 2014 / Atualizado em 28 de julho de 2014

Araújo, Denise - O efeito da utilização da chupeta na Síndrome de Morte Súbita: Uma revisão sistemática da literatura com meta-analise. 2014 Dissertação de Mestrado.

HAUCK, Fern R.; OMOJOKUN, Olanrewaju O.; SIADATY, Mir S. - Do pacifiers reduce the risk of sudden infant death syndrome? A meta-analysis. Pediatrics. Vol. 116. n. º 5 (2005) p. e716-e723.

JENIK, A. G.; VAIN, N. - The pacifier debate. Early Hum Dev. Vol. 85. n. º 10 Suppl (2009). p. 89-91.

NELSON, A. M. - A comprehensive review of evidence and current recommendations related to pacifier usage. J Pediatr Nurs. Vol. 27. N.º 6 (2012). SILVA, J. - O Uso da Chupeta e a Síndrome da Morte Súbita do Lactente. Saúde Infantil. Vol. 22. (2000) p. 39-42.

YONEZU, T.; YAKUSHIJI, M. - Longitudinal study on influence of prolonged non-nutritive sucking habits on dental caries in Japanese children from 1.5 to 3 years of age. Bull Tokyo Dent Coll. Vol. 2. n. º 49 (2008) p. 59-63.

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